terça-feira, 4 de maio de 2010

"A juventude universitária (com qualquer idade) se reconhece por três sinais: a vontade de amar, a curiosidade intelectual e o espírito de audácia" (Giovani Papini)

O ESTUDANTE DE DIREITO E A ÉTICA – ANÁLISE DAS ÚLTIMAS NOTÍCIAS DO JORNAL

Por Ludimila Cruz – Acadêmica do 9º P de Direito UGB

Desde o ocorrido, na UNIBAN (Universidade Bandeirante de São Paulo), com a hostilização da estudante Geyse Arruda (hoje celebridade, vivendo seus quinze minutos de fama ao melhor estilo Andy Warhol: “In the future everyone will be famous for fifteen minutes” (“No futuro, toda a gente será célebre durante quinze minutos”); e agora, com o manifesto homofóbico da USP (o jornaleco da faculdade de Farmácia que instigava os alunos a rejeitarem e jogar fezes nos gays do Campus), e como esperado, a retaliação da comunidade gay da USP, que convocou um “beijaço” entre pessoas do mesmo sexo para provocar os alunos de Farmácia, na terça-feira, dia 04 de Abril de 2010, tenho pensado sobre alguns assuntos e gostaria de compartilhá-los convosco. Minha indignação está no fato de ter passado boa parte da minha vida acadêmica ouvindo que os anos da faculdade são os melhores e mais felizes na vida de qualquer profissional e que o companheirismo acadêmico é sempre espontâneo e prazeroso. Muitos recordam com saudades desse tempo que, enquanto transcorre, é célere e inconseqüente. Agora, “inconseqüente” demais. É possível que a massificação do ensino, tenha feito com que algumas práticas do meio estudantil tenham sido esquecidas ou relegadas. Antes, as antigas turmas das academias tradicionais, levavam muito a sério o fato de fazerem parte de um grupo homogêneo, que a partir da formatura era designado pelo respectivo ano ou nome da Turma. Os laços de convívio eram verdadeiramente fraternos. As turmas seguiam unidas pela vida, reunindo-se a cada aniversário de formatura, irmanadas na memória de um tempo de sadia e gostosa convivência. Contudo, com a oferta do ensino jurídico massificado, com cursos em demasia, tal qual objeto de consumo educacional e colocado à disposição do aluno como mercadoria, esmaeceu a sensibilidade desses contornos. Alunos de uma mesma classe não se conhecem. Passam anos ocupando o mesmo espaço físico sem trocarem palavras. Nada sabem a respeito da vida, das vicissitudes, das angústias e sonhos de seus colegas. São tão somente passageiros transitórios do transporte mercantil que se propôs a dar-lhes um diploma. Importa ressaltar, que considero um dever ético conhecer meu colega e identificá-lo pelo nome. Participar de sua vida e ser solidário, sempre. Um grupo é uma oportunidade de fazer amigos e o ambiente acadêmico é ideal para fazê-lo e irmanar-se com aqueles que partilham as mesmas experiências que nós durante anos seguidos. Ao que parece, hoje, as coisas mudaram muito. Se antes, os bancos acadêmicos eram considerados exemplos do surgimento de novas idéias e novas posturas comportamentais, hoje, a intolerância sexista, causa arrepios àqueles que um dia foram estudantes e que levantaram bandeiras ideológicas, politizadas ou não. Mas sempre com um cunho libertário e muitas vezes poético. Pois a ingenuidade do período e a intensidade dos sentimentos, sempre levaram os jovens estudantes aos arroubos de transformações ou mudança do mundo, nem sempre alcançáveis. Mas, sempre que possível, a mudança do seu próprio comportamento, implicava na modificação dos demais núcleos sociais a que o jovem fazia parte. Parece-vos, esse meu texto saudosista? Pode ser. Pois é distante de mim, diante de tantas notícias e da postura de alguns, a realidade do dever ético do respeito às diferenças. Pois eu mesma, negra, sou diferente. E no universo de uma classe há muitas individualidades diversas. Pessoas que se distinguem por etnia, cor, aspecto físico, idade, origem social, preferências sexuais. Todas elas merecem respeito e compreensão. Eu sei, e conheço por minha própria experiência que a juventude pode ser cruel quando seleciona alguns caracteres que considera estranhos, e sobre eles faz recair a ironia, o sarcasmo ou o deboche. A turma é uma expressão gregária e obedece a alguns condutores. Os líderes naturais, formadores de opinião, respeitados por todo o grupo, estes precisam estar atentos para impedir que os colegas martirizem outros, submetendo-os a qualquer tipo de vexame. O preconceito é coisa a ser banida e chega a ser intolerável numa comunidade jurídica. Pois nesta se ensina que o ser humano, qualquer que seja ele, tem "personalidade", e é titular de direitos e de igual dignidade pela ordem jurídica. Eu, convoco os estudante de Direito à retomada do comportamento ético, à retomada da gentileza e do respeito, e fazer valer uma postura condizente com o profissional que desejamos um dia nos tornar, sabedores que todo estudante é devedor da comunidade em que se integra e que deve voltar-se à essa comunidade participando de projetos de promoção humana, integrando-se a serviços voluntários tendentes ao resgate dos excluídos, atuando decisivamente na fixação dos rumos da conduta dos titulares de funções públicas. Há que se lembrar que o estudante de Direito tem grande poder e a História recente está pontuada de episódios heróicos em que a luta dos acadêmicos serviu à defesa da democracia, da liberdade e da ordem jurídica. O Brasil vive hoje uma tênue experiência democrática, de futuro ainda condicionado ao êxito da estabilização econômica. Por isso toda a atuação acadêmica tendente ao fortalecimento democrático é bem-vinda. É óbvio que freqüentar aulas, estudar, fazer trabalhos, pesquisar e se submeter às avaliações é o mínimo ético reclamado ao universitário. Mais do que isso, cada estudante precisa ingressar na vida político-social, num sentido amplo, favorecendo com as luzes de seu conhecimento e com entusiasmo de sua juventude, a consecução de objetivos propiciadores de um futuro cada vez mais digno à nossa Pátria, essa que nem sempre é Mãe Gentil. E então, o dia 11 de Agosto, conhecido como “Dia do Pendura”, deixará de ser mais um dia na qual estudantes de Direito, comem e bebem nos bares da cidade, e depois correm, fugindo sem pagar a conta, para ser um dia em terão as contas de sua bebida e comida pagas pelos donos dos estabelecimentos, porque, tal qual no século último, estudantes de Direito discursarão sobre as mesas, inflamando a sociedade com eloqüência e disposição, chamando à todos para uma postura mais ética e um convívio mais harmonioso. E com isso, encher os bares de pessoas dispostas a consumir mais. Mais vinho e mais verdade.

Ludimila Cruz

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Brasileiro- Um povo de guerra

No sábado conversava com um amigo francês sobre o povo brasileiro intitular-se “guerreiro”. Foi uma discussão acalorada pois esse amigo, por ser europeu e acostumado à guerra discordou imediatamente do título de “guerreiro”, pois entende tal qual a definição da Wikipédia: “Um guerreiro é uma pessoa habitualmente envolvida em guerra e/ou com habilidades para engajar-se em combate.” Tentei em vão fazê-lo entender, que o nosso combate é outro, em outro sentido... Nossa guerra é diária, contra um Estado que pouco nos favorece...
Ontem, terça-feira, dia 08 de Dezembro pensava ainda sobre essa conversa quando recebi a notícia do 13º salário. Que bom! benefício garantido em lei, que favorece milhares de famílias brasileiras, e eu naturalmente, fiquei feliz. Feliz durante vinte minutos, pois em uma conta aritmética simples, percebi que o dinheiro não era suficiente para pagar as contas... Exatamente como acontece em milhares de famílias brasileiras. Uma batalha para fazer o dinheiro render, sem perder a alegria natalina e manter a esperança de que o ano novo que virá será melhor. Assim vivemos: crendo sempre que vai melhorar!
Saí do escritório com uma chuva torrencial, daquelas de dar medo, e esperando o ônibus ouvia alguma mulheres reclamando de que a linha que nos serve, está atrasando em média quarenta minutos... Pensei: “Sair do trabalho cansada, suada, com calor insuportável, (sim calor, a chuva nunca alivia esse calor!), e ainda esperar uma hora para chegar em casa! Eis minha segunda batalha...”
Quando o ônibus finalmente chegou, não estava lotado, como eu imaginava que estaria, então, fui caminhando lentamente para frente, já que desceria em poucos minutos. Bastou passar em três outros pontos, para que o ônibus ficasse lotado, e grande parte era de idosos, com prioridade para sentar e entrada frontal! Fiquei espremida entre velhinhos aposentados, que Deus-sabe-porquê, só voltam para casa no horário de maior movimento, exatamente quando as pessoas que estavam trabalhando retornam de sua labuta diária! E alguém me responda: Por quê eles não saem de casa às 14h? Por que não pegam o ônibus de 17h? Por quê quando eu saio de casa às 8h, estão todos os velhinhos na rua? POR QUÊ? Eles não trabalham mais!!! Poderiam dormir até tarde, ou simplesmente ficar em casa! Volta Redonda é uma cidade de operários, então é natural que a nossa população de idosos seja numerosa e os benefícios sociais para essa classe seja um avanço em cidadania e tudo mais... Isso me deixa feliz e orgulhosa. Mas, às 18:30h ter o ônibus invadido por aposentados e pensionistas, confesso que me deixou um pouco irritada. E o senta-e-levanta para dar lugar aos mais velhos, como manda a lei e a boa educação, causou um caos no ônibus... Em dado momento, os mais velhos, começaram a dar lugar aos “muito mais velhos”, estava hilário... Não posso esquecer que também entrou um deficiente visual, e uma velhinha ofereceu o lugar apara ele sentar. Confesso que não entendi. Ele é cego, mas é jovem, e se ficasse em pé, não haveria problema algum, mas uma senhora de setenta anos, em pé no ônibus, tendo de se segurar a todo momento para não cair com as freadas e arrancadas bruscas da condução, me pareceu meio insensato... No fim, eu já estava achando graça daquilo tudo. Acha que acabou? Que esse é um texto sobre ônibus lotado de velhinhos? Não, houve um momento em que uma senhora de meia idade entrou e numa crise começou a gritar, alguém disse que ela era esquizofrênica. Ela falava coisas desconexas, dizia odiar negros (detalhe: eu negra, ela perto de mim.), disse que um negro “macaco” havia feito macumba para ela (nesse momento comecei a sentir um certo pavor...), e ficava cada vez mais violenta e falava mais alto e expelia perdigotos por entre seus poucos dentes quando falava... Um cena digna do inferno de Dante. Essa foi a terceira batalha. E pensei na novela Caminho das Índias, e na proposta de popularizar a esquizofrenia com o Bruno Gagliasso fazendo um papel que o país inteiro comentou como sendo importante... Ontem notei uma coisa: é muito diferente ver o Bruno, lindo loiro, de olhos verdes reluzentes tendo uma crise pela TV, do que ver uma mulher larga, quase sem dentes, mal cheirosa, gritando no ônibus cheio (todo fechado por causa da chuva!)! O caos.
Mas, como era de esperar, e como acontece na vida de todo brasileiro, eu olhei para frente, literalmente, e pela janela, vi um rapaz lindo, moreno alto, caminhando com um cachorro também lindo, e educadamente recolhendo com um saquinho a sujeira que o cachorro deixou na calçada... Estamos nos tornando mais educados. Voltei meu olhar novamente para a mulher que gritava e abaixo dela (ela estava em pé.), sentada, havia uma menina de uns nove anos, gordinha, com a pele bem negra, linda, e quando os nossos olhares se cruzaram, ela me devolveu um sorriso complacente, daquele tipo “fazer o quê? Só nos resta esperar e chegar ao nosso destino”. Achei fofa aquela garota e aquele sorriso. Ela não estava com medo da mulher, nem tinha nojo da saliva respingante. Ela estava ali, esperando chegar em casa e livrar-se daquilo tudo. É assim o nosso povo: sempre em busca do momento em que tudo vai melhorar. Crendo sempre que é possível ser feliz.
Quando me preparava para descer, e com a dificuldade de me espremer por entre os velhinhos, tive um acesso de riso, ri muito e meu riso contaminou uns que vinham logo atrás, e descemos uns três ou quatro, rindo muito, rindo alto, por toda aquela insólita situação, mas principalmente, porque sabemos que amanhã tem mais. E se não for assim, deixamos de ser brasileiros.
Caríssimo amigo francês, brasileiro é guerreiro sim, e não desiste nunca.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

BOA NOTÍCIA

Pela janela do ônibus ela olhava as árvores e as poucas casas passando com a lentidão que o mau tempo exigia. Chovia desde que saíra de casa. E era aquela chuva fininha, triste. Um céu escuro, com muitas nuvens. Sem saber por quê, pensou em Paris. Assim era o clima no outono na Cidade Luz. Riu-se, pois jamais estivera em Paris.
O telefone tocou, viu pelo identificador que era o chefe e antes de atender, como um flash back, pensou no dia terrível que tivera e nas dificuldades de ser estagiária. Pensou na chuva fina molhando seus sapatos recém comprados, pensou no tempo perdido, pois chegara com três horas de antecedência, do medo que sentira na estrada, pois a bruma era tão intensa que pouco se podia ver. Pensou no tempo que faltava para terminar a faculdade, na prova da Ordem dos Advogados do Brasil e que quando fosse advogada, sim, teria uma estagiária... Esses eram pensamentos de vingança.
Atendeu o telefone. O chefe ligara para saber se tudo correra bem e anunciou ter boas notícias. Os pensamentos anteriores impediram que ela recebesse com a habitual ansiedade juvenil as tais “boas notícias”. Sem ânimo, ouviu do chefe os recados e as ligações que havia recebido durante o dia. A última chamada era internacional, um telefonema de Paris, e anunciava que alguém estava para chegar. O chefe riu e esperou a reação dela, que respondeu secamente que “boas notícias” seriam aquelas que tratassem de dinheiro. Tentou convencer a si mesma que não se importava e tentou utilizar-se do poder da indiferença. Ela sabia que a indiferença só surte efeito quando realmente os fatos não nos importavam, e que “fingir” indiferença era o primeiro sinal de que ela havia se deixado afetar.
Desligou o telefone e tentou dar continuidade aos pensamentos sorumbáticos. Não conseguiu. Aquela era sim uma boa notícia. Ele havia afinal telefonado. Há quanto tempo não se falavam? Ela lembrou-se do chefe imitando jocosamente o sotaque francês... Riu sem exibir os dentes. Lembrou-se dele. Continuou sorrindo... Ele telefonou. Com o mesmo sorriso, ao olhar pela janela do ônibus, o dia já não lhe parecia tão cinza, nem tão úmido. E quem a observava, poderia jurar que ali estava uma mulher feliz.

domingo, 28 de junho de 2009

Considerações sobre o Regis Tadeu, o Talento e a Morte.



Eu sou assim, um tipo de fã diferente. Compro discos (originais, sempre). Assisto Dvd's, acompanho notícias. Normal, como qualquer outro fã, mas não choro. Não vou para a porta do teatro, ou show, gritar e desmaiar de amor pelo meu ídolo. Por isso, quando sentei no computador, e antes do Jornal Nacional, li sobre a morte do Michael, fiquei triste, engoli o choro e fui entender o que estava acontecendo. Nessa busca, encontrei um texto do Regis Tadeu no Yahoo, pedindo para que deixássemos de hipocrisia e chorássemos o verdadeiro Michael, e não a figura patética em que ele se transformou. Eu discordei no ato.
Regis Tadeu falou que muitos que hoje estão chorosos, um dia já ridicularizaram as bizarrices cometidas por Michael Jackson e a estranha brancura além do (nas palavras do Regis): “nariz de massinha”.
Eu me pergunto se o Regis Tadeu sabe o que é ser negro... Sabe por quantas vezes, ainda morando em Praia Brava, em Angra, dançando jazz, quantas vezes eu desejei ter cabelos lisos para fazer aquele “efeito” ao jogar a cabeça para trás... Aquele efeito tipo clip dos anos 80...
Sabe Regis, o que é ouvir alguém no colégio dizer que teu nariz é feio e “chato”? Sabe o deve ter sido pra esse menino, que era estrela desde os cinco anos, conviver com uma imagem que não lhe agradava, e que ele não via refletida em mais ninguém? Nenhuma revista, nenhum programa de TV, nada reflete o que somos e como somos. Eu vejo as novelas, e não percebo negras como eu, de beleza mediana, inteligentes, advogadas, bancárias, ou empresárias... Vejo negras lindíssimas representando o papel de empregadas, ou atendentes de balcão... Vejo o oposto do que sou. Assim era o menino Michael, que na contra-mão do sistema, era brilhante, mas negro. Normal seria se ele tivesse se perdido com drogas e gangues. Isso era o esperado. Mas, o talento e o desejo de vencer fazendo exatamente o que gosta, falaram muito mais alto.
Pouco me importa se ele não amadureceu, como agora dizem os jornalistas, ou se estava endividado (como muita gente, aliás...), ou se teve filhos de forma pouco convencional. Tudo isso fica menor quando comparado à musicalidade dele, que é o que realmente me importa! E por isso choramos. Não é hipocrisia Regis Tadeu. É penar. É dor de saber que ele não mais estará lá. E eu pouco sei se o disco Thriller foi somente o mais vendido, mas o Off the Wall, o melhor musicalmente. E daí? Alguém certamente ouviu, qualquer das faixas, de qualquer dos discos e se emocionou, e se divertiu e dançou. Afinal, não é por isso que existe a arte?
Eu só lamento a morte. Essa visitante indesejável e certeira. Eu lamento não poder esperar o momento em que Michael Jackson surgiria com algo inusitado, empolgante e nos submeteria novamente àquele torpor de como quando vimos o moonwalk pela primeira vez (ou décima, ou centésima vez...)...
Eu lamento a morte de Peter Pan, que buscando sua sombra perdida, afastou-se de si mesmo. E a Terra do Nunca, jamais será a mesma sem ele.
Por isso, hoje eu chorei.

quarta-feira, 12 de março de 2008

DAS BONECAS E LITERATURA (Ou: impressões da infância distante)

Às vésperas do dia internacional da mulher, pensei em mim. Nos meus anseios femininos, na minha vida de menina, nos sonhos, nos amores...
Pensei nos meus brinquedos, e de longe, a boneca que mais me fez feliz foi a Barbie... A americana loira-linda-rica, com um namorado lindo-loiro-rico, que poderia ser qualquer coisa: veterinária, fotógrafa, ciclista, ginasta, bailarina, etc,etc,etc. E qualquer que fosse a profissão, uma coisa era certa: ela continuava linda-loira-rica. Cresci crendo que eu também poderia ser como a Barbie. Isso é normal, acontece com muitas meninas, sonhar ser tal qual o seu personagem preferido. E eu, queria ser a Barbie. Não fosse um único impedimento: eu olhava a imagem refletida no espelho e me via feia-negra-pobre. Talvez, nem tão feia, nem tão pobre, mas perto da Barbie, eu era a antítese perfeita! O que fazer? Não havia nada a fazer, bastava saber que antes dos dez anos eu já estava conformada com o fato de que nunca teria aqueles seios... Um tempo depois pensei em uma plástica, coisa pouca: 350 ml, mas pela minha estatura eu ficaria curvada com tanto peso dianteiro, ficaria corcunda e ainda mais distante do sonho de beleza e do ideal longilíneo das Barbies...
Mais tarde, ao conhecer Jorge Amado e seus tipos femininos, queria ser Gabriela, Dona Flor com seus dois maridos, queria ser Tieta! Queria ter a força, a beleza, a sensualidade, a coragem e o poder dessas mulheres... Toda a expressão da mulher do nordeste, com o sofrimento da sobrevivência, apesar do desrespeito dos homens, o cuidado extremo com os filhos, a cozinha farta, a vontade de viver e de amar, a leveza e a liberdade com que se entregam às paixões e a carnalidade de seus amores... Seria bom um dia acordar e ser como essas mulheres: fogosas, queimadas de sol, ancas cheias, sorriso largo, lábios sensuais. Queria ser Gabriela! Ter a cor de canela, e sob os cabelos revoltos, trazer o amor de um Nacib de bigodes fartos. E seguindo o perfume de cravo, uns tantos outros...
Eu poderia ser a Rita Baiana de Aloísio Azevedo: mulata assanhada, de cabelo crespo e reluzente, e segundo seu criador “(...) toda ela respirava o asseio das brasileiras e um odor sensual de trevos e plantas aromáticas (...)”... Verdade que eu bem poderia ser Rita Baiana! Ou a Bebel de Camila Pitanga, ou Frida Khalo com suas telas e suas cores, ou Simone de Beauvoir e seus textos, ou Xica da Silva com seus diamantes, ou Virgínia Woolf em toda sua angústia... Eu poderia ser tantas e todas, mas sou só Ludimila.
E Ludimila, descobri-me mais: descobri-me mulher. Por inteiro e aos pedaços. Sem a cor de canela, antes, cor de cravo, com os quadris largos de brasileira típica, com as mesmas dores e as delícias de toda e qualquer mulher...
Hoje não quero mais ser Barbie...Tenho orgulho de ser negra.
Mas um orgulho livre do ranço histórico da escravidão.
Não trago nos pés as correntes da tristeza, de quem usa sempre os mesmos culpados para justificar o injustificável. Também não fecho os meus olhos para a segregação e pobreza dos meus iguais... Contudo, meu povo é todo o Brasil. E trago na pele a história da mistura das etnias e a felicidade de ser brasileira.
Então, feliz 8 de março, sendo você, quem quer que seja, Kika, Fernanda, Sarah, Ana, Lúcia, Suzana, Kátia, Margarida, Cilene, Amanda, Rita, Mônica, Natália, Jussara, Soraya, Antônia, Bruna...

NOVO ESPAÇO!

Inaugurando o blog... As poesias, os contos, as crônicas e minhas impressões sobre o cotidiano. Tudo aqui!