No sábado conversava com um amigo francês sobre o povo brasileiro intitular-se “guerreiro”. Foi uma discussão acalorada pois esse amigo, por ser europeu e acostumado à guerra discordou imediatamente do título de “guerreiro”, pois entende tal qual a definição da Wikipédia: “Um guerreiro é uma pessoa habitualmente envolvida em guerra e/ou com habilidades para engajar-se em combate.” Tentei em vão fazê-lo entender, que o nosso combate é outro, em outro sentido... Nossa guerra é diária, contra um Estado que pouco nos favorece...
Ontem, terça-feira, dia 08 de Dezembro pensava ainda sobre essa conversa quando recebi a notícia do 13º salário. Que bom! benefício garantido em lei, que favorece milhares de famílias brasileiras, e eu naturalmente, fiquei feliz. Feliz durante vinte minutos, pois em uma conta aritmética simples, percebi que o dinheiro não era suficiente para pagar as contas... Exatamente como acontece em milhares de famílias brasileiras. Uma batalha para fazer o dinheiro render, sem perder a alegria natalina e manter a esperança de que o ano novo que virá será melhor. Assim vivemos: crendo sempre que vai melhorar!
Saí do escritório com uma chuva torrencial, daquelas de dar medo, e esperando o ônibus ouvia alguma mulheres reclamando de que a linha que nos serve, está atrasando em média quarenta minutos... Pensei: “Sair do trabalho cansada, suada, com calor insuportável, (sim calor, a chuva nunca alivia esse calor!), e ainda esperar uma hora para chegar em casa! Eis minha segunda batalha...”
Quando o ônibus finalmente chegou, não estava lotado, como eu imaginava que estaria, então, fui caminhando lentamente para frente, já que desceria em poucos minutos. Bastou passar em três outros pontos, para que o ônibus ficasse lotado, e grande parte era de idosos, com prioridade para sentar e entrada frontal! Fiquei espremida entre velhinhos aposentados, que Deus-sabe-porquê, só voltam para casa no horário de maior movimento, exatamente quando as pessoas que estavam trabalhando retornam de sua labuta diária! E alguém me responda: Por quê eles não saem de casa às 14h? Por que não pegam o ônibus de 17h? Por quê quando eu saio de casa às 8h, estão todos os velhinhos na rua? POR QUÊ? Eles não trabalham mais!!! Poderiam dormir até tarde, ou simplesmente ficar em casa! Volta Redonda é uma cidade de operários, então é natural que a nossa população de idosos seja numerosa e os benefícios sociais para essa classe seja um avanço em cidadania e tudo mais... Isso me deixa feliz e orgulhosa. Mas, às 18:30h ter o ônibus invadido por aposentados e pensionistas, confesso que me deixou um pouco irritada. E o senta-e-levanta para dar lugar aos mais velhos, como manda a lei e a boa educação, causou um caos no ônibus... Em dado momento, os mais velhos, começaram a dar lugar aos “muito mais velhos”, estava hilário... Não posso esquecer que também entrou um deficiente visual, e uma velhinha ofereceu o lugar apara ele sentar. Confesso que não entendi. Ele é cego, mas é jovem, e se ficasse em pé, não haveria problema algum, mas uma senhora de setenta anos, em pé no ônibus, tendo de se segurar a todo momento para não cair com as freadas e arrancadas bruscas da condução, me pareceu meio insensato... No fim, eu já estava achando graça daquilo tudo. Acha que acabou? Que esse é um texto sobre ônibus lotado de velhinhos? Não, houve um momento em que uma senhora de meia idade entrou e numa crise começou a gritar, alguém disse que ela era esquizofrênica. Ela falava coisas desconexas, dizia odiar negros (detalhe: eu negra, ela perto de mim.), disse que um negro “macaco” havia feito macumba para ela (nesse momento comecei a sentir um certo pavor...), e ficava cada vez mais violenta e falava mais alto e expelia perdigotos por entre seus poucos dentes quando falava... Um cena digna do inferno de Dante. Essa foi a terceira batalha. E pensei na novela Caminho das Índias, e na proposta de popularizar a esquizofrenia com o Bruno Gagliasso fazendo um papel que o país inteiro comentou como sendo importante... Ontem notei uma coisa: é muito diferente ver o Bruno, lindo loiro, de olhos verdes reluzentes tendo uma crise pela TV, do que ver uma mulher larga, quase sem dentes, mal cheirosa, gritando no ônibus cheio (todo fechado por causa da chuva!)! O caos.
Mas, como era de esperar, e como acontece na vida de todo brasileiro, eu olhei para frente, literalmente, e pela janela, vi um rapaz lindo, moreno alto, caminhando com um cachorro também lindo, e educadamente recolhendo com um saquinho a sujeira que o cachorro deixou na calçada... Estamos nos tornando mais educados. Voltei meu olhar novamente para a mulher que gritava e abaixo dela (ela estava em pé.), sentada, havia uma menina de uns nove anos, gordinha, com a pele bem negra, linda, e quando os nossos olhares se cruzaram, ela me devolveu um sorriso complacente, daquele tipo “fazer o quê? Só nos resta esperar e chegar ao nosso destino”. Achei fofa aquela garota e aquele sorriso. Ela não estava com medo da mulher, nem tinha nojo da saliva respingante. Ela estava ali, esperando chegar em casa e livrar-se daquilo tudo. É assim o nosso povo: sempre em busca do momento em que tudo vai melhorar. Crendo sempre que é possível ser feliz.
Quando me preparava para descer, e com a dificuldade de me espremer por entre os velhinhos, tive um acesso de riso, ri muito e meu riso contaminou uns que vinham logo atrás, e descemos uns três ou quatro, rindo muito, rindo alto, por toda aquela insólita situação, mas principalmente, porque sabemos que amanhã tem mais. E se não for assim, deixamos de ser brasileiros.
Caríssimo amigo francês, brasileiro é guerreiro sim, e não desiste nunca.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
Assinar:
Comentários (Atom)