"A juventude universitária (com qualquer idade) se reconhece por três sinais: a vontade de amar, a curiosidade intelectual e o espírito de audácia" (Giovani Papini)
O ESTUDANTE DE DIREITO E A ÉTICA – ANÁLISE DAS ÚLTIMAS NOTÍCIAS DO JORNAL
Por Ludimila Cruz – Acadêmica do 9º P de Direito UGB
Desde o ocorrido, na UNIBAN (Universidade Bandeirante de São Paulo), com a hostilização da estudante Geyse Arruda (hoje celebridade, vivendo seus quinze minutos de fama ao melhor estilo Andy Warhol: “In the future everyone will be famous for fifteen minutes” (“No futuro, toda a gente será célebre durante quinze minutos”); e agora, com o manifesto homofóbico da USP (o jornaleco da faculdade de Farmácia que instigava os alunos a rejeitarem e jogar fezes nos gays do Campus), e como esperado, a retaliação da comunidade gay da USP, que convocou um “beijaço” entre pessoas do mesmo sexo para provocar os alunos de Farmácia, na terça-feira, dia 04 de Abril de 2010, tenho pensado sobre alguns assuntos e gostaria de compartilhá-los convosco. Minha indignação está no fato de ter passado boa parte da minha vida acadêmica ouvindo que os anos da faculdade são os melhores e mais felizes na vida de qualquer profissional e que o companheirismo acadêmico é sempre espontâneo e prazeroso. Muitos recordam com saudades desse tempo que, enquanto transcorre, é célere e inconseqüente. Agora, “inconseqüente” demais. É possível que a massificação do ensino, tenha feito com que algumas práticas do meio estudantil tenham sido esquecidas ou relegadas. Antes, as antigas turmas das academias tradicionais, levavam muito a sério o fato de fazerem parte de um grupo homogêneo, que a partir da formatura era designado pelo respectivo ano ou nome da Turma. Os laços de convívio eram verdadeiramente fraternos. As turmas seguiam unidas pela vida, reunindo-se a cada aniversário de formatura, irmanadas na memória de um tempo de sadia e gostosa convivência. Contudo, com a oferta do ensino jurídico massificado, com cursos em demasia, tal qual objeto de consumo educacional e colocado à disposição do aluno como mercadoria, esmaeceu a sensibilidade desses contornos. Alunos de uma mesma classe não se conhecem. Passam anos ocupando o mesmo espaço físico sem trocarem palavras. Nada sabem a respeito da vida, das vicissitudes, das angústias e sonhos de seus colegas. São tão somente passageiros transitórios do transporte mercantil que se propôs a dar-lhes um diploma. Importa ressaltar, que considero um dever ético conhecer meu colega e identificá-lo pelo nome. Participar de sua vida e ser solidário, sempre. Um grupo é uma oportunidade de fazer amigos e o ambiente acadêmico é ideal para fazê-lo e irmanar-se com aqueles que partilham as mesmas experiências que nós durante anos seguidos. Ao que parece, hoje, as coisas mudaram muito. Se antes, os bancos acadêmicos eram considerados exemplos do surgimento de novas idéias e novas posturas comportamentais, hoje, a intolerância sexista, causa arrepios àqueles que um dia foram estudantes e que levantaram bandeiras ideológicas, politizadas ou não. Mas sempre com um cunho libertário e muitas vezes poético. Pois a ingenuidade do período e a intensidade dos sentimentos, sempre levaram os jovens estudantes aos arroubos de transformações ou mudança do mundo, nem sempre alcançáveis. Mas, sempre que possível, a mudança do seu próprio comportamento, implicava na modificação dos demais núcleos sociais a que o jovem fazia parte. Parece-vos, esse meu texto saudosista? Pode ser. Pois é distante de mim, diante de tantas notícias e da postura de alguns, a realidade do dever ético do respeito às diferenças. Pois eu mesma, negra, sou diferente. E no universo de uma classe há muitas individualidades diversas. Pessoas que se distinguem por etnia, cor, aspecto físico, idade, origem social, preferências sexuais. Todas elas merecem respeito e compreensão. Eu sei, e conheço por minha própria experiência que a juventude pode ser cruel quando seleciona alguns caracteres que considera estranhos, e sobre eles faz recair a ironia, o sarcasmo ou o deboche. A turma é uma expressão gregária e obedece a alguns condutores. Os líderes naturais, formadores de opinião, respeitados por todo o grupo, estes precisam estar atentos para impedir que os colegas martirizem outros, submetendo-os a qualquer tipo de vexame. O preconceito é coisa a ser banida e chega a ser intolerável numa comunidade jurídica. Pois nesta se ensina que o ser humano, qualquer que seja ele, tem "personalidade", e é titular de direitos e de igual dignidade pela ordem jurídica. Eu, convoco os estudante de Direito à retomada do comportamento ético, à retomada da gentileza e do respeito, e fazer valer uma postura condizente com o profissional que desejamos um dia nos tornar, sabedores que todo estudante é devedor da comunidade em que se integra e que deve voltar-se à essa comunidade participando de projetos de promoção humana, integrando-se a serviços voluntários tendentes ao resgate dos excluídos, atuando decisivamente na fixação dos rumos da conduta dos titulares de funções públicas. Há que se lembrar que o estudante de Direito tem grande poder e a História recente está pontuada de episódios heróicos em que a luta dos acadêmicos serviu à defesa da democracia, da liberdade e da ordem jurídica. O Brasil vive hoje uma tênue experiência democrática, de futuro ainda condicionado ao êxito da estabilização econômica. Por isso toda a atuação acadêmica tendente ao fortalecimento democrático é bem-vinda. É óbvio que freqüentar aulas, estudar, fazer trabalhos, pesquisar e se submeter às avaliações é o mínimo ético reclamado ao universitário. Mais do que isso, cada estudante precisa ingressar na vida político-social, num sentido amplo, favorecendo com as luzes de seu conhecimento e com entusiasmo de sua juventude, a consecução de objetivos propiciadores de um futuro cada vez mais digno à nossa Pátria, essa que nem sempre é Mãe Gentil. E então, o dia 11 de Agosto, conhecido como “Dia do Pendura”, deixará de ser mais um dia na qual estudantes de Direito, comem e bebem nos bares da cidade, e depois correm, fugindo sem pagar a conta, para ser um dia em terão as contas de sua bebida e comida pagas pelos donos dos estabelecimentos, porque, tal qual no século último, estudantes de Direito discursarão sobre as mesas, inflamando a sociedade com eloqüência e disposição, chamando à todos para uma postura mais ética e um convívio mais harmonioso. E com isso, encher os bares de pessoas dispostas a consumir mais. Mais vinho e mais verdade.
Ludimila Cruz