quarta-feira, 12 de março de 2008

DAS BONECAS E LITERATURA (Ou: impressões da infância distante)

Às vésperas do dia internacional da mulher, pensei em mim. Nos meus anseios femininos, na minha vida de menina, nos sonhos, nos amores...
Pensei nos meus brinquedos, e de longe, a boneca que mais me fez feliz foi a Barbie... A americana loira-linda-rica, com um namorado lindo-loiro-rico, que poderia ser qualquer coisa: veterinária, fotógrafa, ciclista, ginasta, bailarina, etc,etc,etc. E qualquer que fosse a profissão, uma coisa era certa: ela continuava linda-loira-rica. Cresci crendo que eu também poderia ser como a Barbie. Isso é normal, acontece com muitas meninas, sonhar ser tal qual o seu personagem preferido. E eu, queria ser a Barbie. Não fosse um único impedimento: eu olhava a imagem refletida no espelho e me via feia-negra-pobre. Talvez, nem tão feia, nem tão pobre, mas perto da Barbie, eu era a antítese perfeita! O que fazer? Não havia nada a fazer, bastava saber que antes dos dez anos eu já estava conformada com o fato de que nunca teria aqueles seios... Um tempo depois pensei em uma plástica, coisa pouca: 350 ml, mas pela minha estatura eu ficaria curvada com tanto peso dianteiro, ficaria corcunda e ainda mais distante do sonho de beleza e do ideal longilíneo das Barbies...
Mais tarde, ao conhecer Jorge Amado e seus tipos femininos, queria ser Gabriela, Dona Flor com seus dois maridos, queria ser Tieta! Queria ter a força, a beleza, a sensualidade, a coragem e o poder dessas mulheres... Toda a expressão da mulher do nordeste, com o sofrimento da sobrevivência, apesar do desrespeito dos homens, o cuidado extremo com os filhos, a cozinha farta, a vontade de viver e de amar, a leveza e a liberdade com que se entregam às paixões e a carnalidade de seus amores... Seria bom um dia acordar e ser como essas mulheres: fogosas, queimadas de sol, ancas cheias, sorriso largo, lábios sensuais. Queria ser Gabriela! Ter a cor de canela, e sob os cabelos revoltos, trazer o amor de um Nacib de bigodes fartos. E seguindo o perfume de cravo, uns tantos outros...
Eu poderia ser a Rita Baiana de Aloísio Azevedo: mulata assanhada, de cabelo crespo e reluzente, e segundo seu criador “(...) toda ela respirava o asseio das brasileiras e um odor sensual de trevos e plantas aromáticas (...)”... Verdade que eu bem poderia ser Rita Baiana! Ou a Bebel de Camila Pitanga, ou Frida Khalo com suas telas e suas cores, ou Simone de Beauvoir e seus textos, ou Xica da Silva com seus diamantes, ou Virgínia Woolf em toda sua angústia... Eu poderia ser tantas e todas, mas sou só Ludimila.
E Ludimila, descobri-me mais: descobri-me mulher. Por inteiro e aos pedaços. Sem a cor de canela, antes, cor de cravo, com os quadris largos de brasileira típica, com as mesmas dores e as delícias de toda e qualquer mulher...
Hoje não quero mais ser Barbie...Tenho orgulho de ser negra.
Mas um orgulho livre do ranço histórico da escravidão.
Não trago nos pés as correntes da tristeza, de quem usa sempre os mesmos culpados para justificar o injustificável. Também não fecho os meus olhos para a segregação e pobreza dos meus iguais... Contudo, meu povo é todo o Brasil. E trago na pele a história da mistura das etnias e a felicidade de ser brasileira.
Então, feliz 8 de março, sendo você, quem quer que seja, Kika, Fernanda, Sarah, Ana, Lúcia, Suzana, Kátia, Margarida, Cilene, Amanda, Rita, Mônica, Natália, Jussara, Soraya, Antônia, Bruna...

NOVO ESPAÇO!

Inaugurando o blog... As poesias, os contos, as crônicas e minhas impressões sobre o cotidiano. Tudo aqui!