Eu sou assim, um tipo de fã diferente. Compro discos (originais, sempre). Assisto Dvd's, acompanho notícias. Normal, como qualquer outro fã, mas não choro. Não vou para a porta do teatro, ou show, gritar e desmaiar de amor pelo meu ídolo. Por isso, quando sentei no computador, e antes do Jornal Nacional, li sobre a morte do Michael, fiquei triste, engoli o choro e fui entender o que estava acontecendo. Nessa busca, encontrei um texto do Regis Tadeu no Yahoo, pedindo para que deixássemos de hipocrisia e chorássemos o verdadeiro Michael, e não a figura patética em que ele se transformou. Eu discordei no ato.
Regis Tadeu falou que muitos que hoje estão chorosos, um dia já ridicularizaram as bizarrices cometidas por Michael Jackson e a estranha brancura além do (nas palavras do Regis): “nariz de massinha”.
Eu me pergunto se o Regis Tadeu sabe o que é ser negro... Sabe por quantas vezes, ainda morando em Praia Brava, em Angra, dançando jazz, quantas vezes eu desejei ter cabelos lisos para fazer aquele “efeito” ao jogar a cabeça para trás... Aquele efeito tipo clip dos anos 80...
Sabe Regis, o que é ouvir alguém no colégio dizer que teu nariz é feio e “chato”? Sabe o deve ter sido pra esse menino, que era estrela desde os cinco anos, conviver com uma imagem que não lhe agradava, e que ele não via refletida em mais ninguém? Nenhuma revista, nenhum programa de TV, nada reflete o que somos e como somos. Eu vejo as novelas, e não percebo negras como eu, de beleza mediana, inteligentes, advogadas, bancárias, ou empresárias... Vejo negras lindíssimas representando o papel de empregadas, ou atendentes de balcão... Vejo o oposto do que sou. Assim era o menino Michael, que na contra-mão do sistema, era brilhante, mas negro. Normal seria se ele tivesse se perdido com drogas e gangues. Isso era o esperado. Mas, o talento e o desejo de vencer fazendo exatamente o que gosta, falaram muito mais alto.
Pouco me importa se ele não amadureceu, como agora dizem os jornalistas, ou se estava endividado (como muita gente, aliás...), ou se teve filhos de forma pouco convencional. Tudo isso fica menor quando comparado à musicalidade dele, que é o que realmente me importa! E por isso choramos. Não é hipocrisia Regis Tadeu. É penar. É dor de saber que ele não mais estará lá. E eu pouco sei se o disco Thriller foi somente o mais vendido, mas o Off the Wall, o melhor musicalmente. E daí? Alguém certamente ouviu, qualquer das faixas, de qualquer dos discos e se emocionou, e se divertiu e dançou. Afinal, não é por isso que existe a arte?
Eu só lamento a morte. Essa visitante indesejável e certeira. Eu lamento não poder esperar o momento em que Michael Jackson surgiria com algo inusitado, empolgante e nos submeteria novamente àquele torpor de como quando vimos o moonwalk pela primeira vez (ou décima, ou centésima vez...)...
Eu lamento a morte de Peter Pan, que buscando sua sombra perdida, afastou-se de si mesmo. E a Terra do Nunca, jamais será a mesma sem ele.
Por isso, hoje eu chorei.