Pela janela do ônibus ela olhava as árvores e as poucas casas passando com a lentidão que o mau tempo exigia. Chovia desde que saíra de casa. E era aquela chuva fininha, triste. Um céu escuro, com muitas nuvens. Sem saber por quê, pensou em Paris. Assim era o clima no outono na Cidade Luz. Riu-se, pois jamais estivera em Paris.
O telefone tocou, viu pelo identificador que era o chefe e antes de atender, como um flash back, pensou no dia terrível que tivera e nas dificuldades de ser estagiária. Pensou na chuva fina molhando seus sapatos recém comprados, pensou no tempo perdido, pois chegara com três horas de antecedência, do medo que sentira na estrada, pois a bruma era tão intensa que pouco se podia ver. Pensou no tempo que faltava para terminar a faculdade, na prova da Ordem dos Advogados do Brasil e que quando fosse advogada, sim, teria uma estagiária... Esses eram pensamentos de vingança.
Atendeu o telefone. O chefe ligara para saber se tudo correra bem e anunciou ter boas notícias. Os pensamentos anteriores impediram que ela recebesse com a habitual ansiedade juvenil as tais “boas notícias”. Sem ânimo, ouviu do chefe os recados e as ligações que havia recebido durante o dia. A última chamada era internacional, um telefonema de Paris, e anunciava que alguém estava para chegar. O chefe riu e esperou a reação dela, que respondeu secamente que “boas notícias” seriam aquelas que tratassem de dinheiro. Tentou convencer a si mesma que não se importava e tentou utilizar-se do poder da indiferença. Ela sabia que a indiferença só surte efeito quando realmente os fatos não nos importavam, e que “fingir” indiferença era o primeiro sinal de que ela havia se deixado afetar.
Desligou o telefone e tentou dar continuidade aos pensamentos sorumbáticos. Não conseguiu. Aquela era sim uma boa notícia. Ele havia afinal telefonado. Há quanto tempo não se falavam? Ela lembrou-se do chefe imitando jocosamente o sotaque francês... Riu sem exibir os dentes. Lembrou-se dele. Continuou sorrindo... Ele telefonou. Com o mesmo sorriso, ao olhar pela janela do ônibus, o dia já não lhe parecia tão cinza, nem tão úmido. E quem a observava, poderia jurar que ali estava uma mulher feliz.
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
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